Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade Portuguesa de Naturalogia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade Portuguesa de Naturalogia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 13 - Urtiga (by Miguel Boieiro)

«Mandar alguém às urtigas», para que não nos aborreça mais, tornou-se um dito corrente. E se de facto, a expressão indica menosprezo por quem nos incomoda, também não coloca em alta conta, a urtiga, «erva desprezível» que queremos ver longe de nós. Trata-se de uma tremenda injustiça, aproveitamos para dizer e mais à frente explicaremos porquê.

Não restam dúvidas que a urtiga está disseminada por todo o lado e que as suas picadelas não são nada agradáveis. Por isso mesmo, é das plantas silvestres mais conhecidas. Diremos mesmo, não há ninguém que não a conheça. Para quê então, vir aqui falar dessa ervinha que toda a gente tem a «desdita» de conhecer? Na verdade, as aparências iludem, dado que a urtiga ocupa lugar de destaque na fitoterapia e não só.

Existem várias espécies de urtigas, mas todas elas pertencem à família das Urticáceas e têm propriedades praticamente iguais. Entre nós, a mais profusa é a Urtica dioica que alastra por todo o país. Chega a atingir 1,5 m de altura, tem caule ereto e folhas ovais, opostas e dentadas. As flores, de cor verde, ramificam-se em espigas colocadas nas axilas das folhas superiores. Toda a planta está coberta de finos pêlos cuja picada origina muita comichão devido a conter um produto histamínico. Esta propriedade constitui uma defesa da própria planta que assim fica menos apetecível para os diversos animais.

Para além da histamina, a urtiga contém numerosos compostos, ácido fórmico, caroteno, abundante clorofila, tanino, ferro, potássio, cálcio, enxofre, silício e é rica em vitaminas C, B2 e B6. Tal constituição implica variadíssimas propriedades, entre as quais, a de ser depurativa, anti anémica, hemostática, antidiabética, etc.

Vamos agora detalhar alguns dos seus potenciais usos, cujos efeitos benéficos se encontram comprovados, surpreendendo, por ventura os mais desprevenidos.

Em primeiro lugar, queremos referir que a cáustica picada da urtiga é extremamente útil para os doentes de reumatismo, paralisia e deficiente circulação sanguínea. Esfregar a pele com urtigas provoca uma excelente reação nas pessoas fracas e anémicas. Escritos antigos apontam mesmo, como muito eficaz, a fricção do baixo-ventre como meio de estimular as funções sexuais, quer para homens, quer para mulheres. Não custa nada fazer a experiência! 

(Um breve parêntesis para referir que quando esta minha croniqueta foi publicada no jornal local alguns idosos que se reúnem todos os dias no largo principal da vila abordaram-me alegremente falando deste pormenor. O artigo era vasto mas eles só se detiveram neste detalhe. Logo pensei: 
– Queres ver que eles já experimentaram ou estão a fim de experimentar!)

O «chá» de urtigas (30 g de folhas secas para um litro de água, ou 60 g da planta verde, o que é preferível) é bom para os diabéticos e anémicos. Para uso externo (irrigações) estanca as hemorragias. Melhor será, contudo, utilizar o suco da urtiga, tomando-se uma colher de sopa, duas ou três vezes ao dia. Há naturopatas que recomendam ainda a decocção, a maceração, ou o xarope.

Em cosmética é famosa a ação da urtiga para o tratamento do couro cabeludo e da queda do cabelo. Diversas loções capilares são preparadas com base nos seus princípios ativos.

Muita gente ficará espantada e incrédula se lhes dissermos que as urtigas podem ser consumidas como qualquer legume hortícola. Pois é verdade, a urtiga entra também na gastronomia onde poderá ter um lugar de maior destaque se as pessoas abandonarem preconceitos e tabus. Como? Muito simplesmente como se de nabiças ou de espinafres se tratasse. Basta passar as plantas por água tépida para que deixem de picar. Depois separam-se os talos (demasiado fibrosos) e aproveitam-se as folhas que são ótimas para a confeção de sopas e outros pratos cozinhados. Não conhecemos melhor esparregado do que o de urtigas. Devido ao alto teor de clorofila, o esparregado mantém uma cor verde agradável, ao contrário do que acontece em determinados restaurantes onde o verde vivo do esparregado se deve à utilização do bicarbonato de sódio. O sabor? É agradável e ninguém descobre que provém das urtigas, se não lhe dissermos.

Finalmente queremos ainda acrescentar que estudos efetuados acerca dos efeitos das associações vegetais revelaram que a presença da urtiga melhora o desenvolvimento de outras plantas, como as ervas aromáticas, cujo teor em essências sai reforçado

 Miguel Boieiro

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 12 - Arroz (by Miguel Boieiro)

Observo sempre com muita curiosidade a vegetação das terras por onde deambulo nas minhas viagens. Depois escolho uma das plantas encontradas, por uma questão de mera simpatia ou por a julgar mais significativa, para ser o alvo das minhas investigações botânicas.
Ora, estando mais de um mês no sul da China (ilha Hainan), qual foi a planta que aí encontrei mais abundante e representativa? Já calculam! Foi a do arroz, cereal que é a base da alimentação de 1400 milhões de chineses e de mais de metade da população mundial.
O arroz sempre me apaixonou e tenho para com ele um carinho e uma afinidade que vêm dos tempos de menino. O meu pai, embora analfabeto, concentrava um conjunto de saberes ancestrais e misteriosos que recebeu oralmente dos antepassados. Um dia, já perto do Natal, que para ele nada tinha a ver com o consumismo da festa da cristandade, trouxe da Barroca d’Alva umas sementinhas castanhas que colocou num pires com alguma água. Curioso, como sempre fui, todos os dias ia ver as sementes e acompanhei radiante a sua rápida germinação. Nasceu uma pequena seara de um verde tão bonito e mimoso, como jamais vira. E aí logo me dei conta de que estava perante algo imensamente mais sagrado do que os “meninos-jesuses” de todo o mundo, uma vez que “pais-natais” ainda não havia naqueles idos (que me desculpem os crentes mais radicais). 

A sensação do arroz como planta sagrada, tive-a, de novo, na China profunda, ao ver as searas amorosamente cuidadas e enquanto ia comendo arroz três vezes por dia durante um largo mês. Definitivamente, fiquei fã do arroz.

Há meia dúzia de anos comprei um livro que descrevia, tim-tim por tim-tim, este afamado comestível, terminando com dezenas de receitas. Emprestei-o a alguém e não voltei a reavê-lo. Paciência! Que a esse alguém lhe faça bom proveito, são os meus votos sinceros. Recordo, no entanto, que lá se referia o nosso país como o maior consumidor europeu do precioso cereal: 17 kg por ano, per capita. A seguir vinha a Espanha com 9 kg e muito atrás, todos os outros. Num almoço ocasional com o embaixador da Coreia do Norte perguntei-lhe, qual seria o consumo médio por pessoa na RPD da Coreia. Fez umas contas rápidas e de imediato me respondeu: 150 kg! 
Existem cerca de 8 mil variedades de arroz, mas basicamente elas integram sete espécies, sendo a mais conhecida a Oryza sativa (arroz asiático). Cada vez mais apreciadas são as variedades perfumadas, como o basmati, o jasmim, o vermelho e o dourado, este, manipulado geneticamente. Entre nós, as mais conhecidas são o carolino e o agulha.
 
Como se sabe, o arroz é uma gramínea de origem asiática. Julga-se que é usado como alimento há perto de 7 mil anos, fazendo parte do quotidiano dos países orientais que são, de longe, os seus principais produtores e consumidores.
A planta tem um cultivo anual em terras alagadas, mas pode sobreviver por vários anos nas regiões tropicais. 
O arroz é um dos alimentos mais equilibrados que se conhece. Contém hidratos de carbono, proteínas, vitaminas B1, B2, B3, cálcio, magnésio, manganés, fosforo, zinco, ferro, proteínas, pouca gordura e nenhum glúten. No que respeita às proteínas, é certo que não possui a totalidade dos aminoácidos essenciais, mas combina muito bem com todas as outras fontes proteicas.
O arroz integral, ou seja o arroz em que apenas se retira a casca exterior (celulose), ficando com uma película fina acastanhada, é o melhor para uma nutrição saudável. Essa película contém fibra e maior quantidade de proteína e de gordura, alimentando muito mais. Se bem mastigado, é de fácil digestão, combatendo o colesterol, a arteriosclerose, a diabetes, a prisão do ventre e outras disfunções do aparelho digestivo. Além disso, contém selénio que é um antioxidante natural que beneficia o sistema imunológico. Quem consome apenas arroz normal, leva algum tempo a habituar-se ao integral, mas depois acaba por o achar mais saboroso que o chamado arroz branco. 
Quanto às formas de cozinhar, elas variam muito, de país para país e de região para região. Na China o arroz é cozido a vapor o que, de entre outras vantagens, fica mais a jeito para ser comido com os tradicionais pauzinhos, como aliás, sempre assim fiz.
Para mim, que gosto dele bem cozido mas não empapado, a melhor maneira é usar o forno solar: uma parte de arroz para três de água, um pouco de azeite e uma pitada de sal, sol que baste e passadas 2 horas, está pronto. Vantagens: não esturra, não pega, não endurece e é claro, não se despende energia elétrica nem gás, o que, em tempos de aguda crise, não é de somenos. 
 Miguel Boieiro

sexta-feira, 20 de julho de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 11 - Borragem (by Miguel Boieiro)

Os amantes da Arrábida, que procuram com deleite os encantos desta bela serra durante todo o ano, encontram já em fins de fevereiro, nas cercanias de Azeitão, a borragem florida. Indubitavelmente, dos azuis mais vistosos que a natureza ostenta, em forma de estrela e aos cachos, as flores de borragem têm inspirado artistas desde remotas eras. E se em terras mais frias a floração só acontece lá para os meses de maio ou junho, na Arrábida ela vem muito cedo, brindando as abelhas que a buscam com avidez para produzir o maravilhoso néctar.

A Borago officinalis é uma herbácea anual da família das Borragináceas, cujo porte majestoso se eleva por vezes a 60 cm do solo se este for rico em húmus e o local soalheiro. A planta apresenta-se simples ou ramificada, com caule cilíndrico e grandes folhas enrugadas de forma elíptica e pecíolo curto. Tanto o caule como as folhas estão cobertos de pêlos que se transformam em finos espinhos à medida que a planta atinge maturidade. As flores, possuindo longos pecíolos, são de um azul muito vivo e abrem em estrela, como já se disse. Têm cinco pétalas ligadas entre si com anteras pontiagudas de cor escura.

Segundo se julga, a borragem é oriunda da região mediterrânica. No nosso país é frequente em terrenos incultos, suportando altitudes até aos 1800 metros. Em França há quem a cultive nas hortas como planta comestível, quando as suas folhas tenras ainda se encontram desprovidas de espinhos. Fica bem, quer na confeção de sopas, quer na preparação de saladas onde o seu delicado sabor a pepino se sobrepõe. As flores podem ser também utilizadas em culinária pelo seu aspecto agradavelmente decorativo.

Brendan Lehane, na obra «The Power of Plants», aponta uma curiosa associação entre a borragem e o morangueiro. Segundo este autor, a presença da borragem incrementa extraordinariamente a produção de morangos.

No que respeita à fitoterapia,a borragem é uma das plantas mais aconselhadas. A sua composição química integra mucilagens, nitrato de potássio, tanino, saponósidos, resinas e vitamina C.

É extremamente eficaz para combater as bronquites, os resfriamentos e as tosses rebeldes. Como sudorífico é utilizado desde tempos muito antigos, tendo portanto, ação benéfica sobre os rins e a pele. Além disso, a planta é também diurética, emoliente, expectorante e peitoral. O «chá», que deve ser tomado bem quente e adoçado com mel, prepara-se a partir de 30 g de flores, ou 50 g de folhas e caules, para um litro de água. Convém tomar-se várias chávenas por dia no intervalo das refeições. De preferência devemos usar a planta verde, pois desta forma, possui muito mais princípios ativos.

Outra maneira de usar a borragem é através de cataplasmas das folhas finamente migadas que atuam como calmante e descongestionante para queimaduras, abcessos, gota e reumatismo.

Finalmente, referimos ainda as potencialidades da borragem na cosmética, visto possuir as mesmas propriedades do pepino para limpar e tonificar a pele. O suco, que é bastante abundante, desimpede os poros da epiderme, dilatando-os e oleando-os. Para confecionar máscaras faciais é ótimo, dado ser mais suportável para cútis delicadas do que muitos outros preparados.

Miguel Boieiro

sexta-feira, 29 de junho de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 10 - Alfarrobeira (by Miguel Boieiro)

Adoro jardins botânicos e visito-os, sempre que possível, em vários recantos do mundo. É uma mania como outra qualquer, mas que me incentiva o desejo de conhecer, cada vez melhor, o reino fascinante da flora. Em 2002, estive em Washington e logo que pude, fui visitar o “The U.S. National Botanic Garden”. Quase todo com estufas climatizado e relativamente pequeno, comparado com outros congéneres, o atraente espaço estava dotado de pormenorizadas descrições científicas. Uma, das que me sensibilizaram, referia a alfarrobeira, “planta exótica e quase sobrenatural, face às suas múltiplas virtudes”. E lá estava a árvore, ainda pequena, numa estufa envidraçada, objeto de grande admiração dos curiosos visitantes. Lembrei-me então de que, quando miúdo, muito gostava eu de roer as vagens de alfarroba que o meu avô comprava para dar ao cavalo. Planta exótica, qual quê? Basta ir à nossa Arrábida e, nas cercanias do Portinho, divisar alfarrobeiras por todo o lado…
Contudo, a raridade da alfarrobeira à escala planetária, tem a ver com as exigências climatéricas desta árvore da bacia mediterrânica, conhecida desde remotas eras. Ela gosta de climas secos e suaves e não aguenta geadas. No que concerne ao nosso País e para além da vertente sul da serra da Arrábida, as alfarrobeiras concentram-se, sobretudo, no barrocal algarvio, onde assumem razoável expressão económica.

A Ceratonia siliqua L. é uma leguminosa de folha perene que logra atingir 10 metros de altura e durar cerca de 500 anos.

Possui tronco irregular, cinzento, com ramagens largas e pendentes. As folhas são elípticas, alternas, coriáceas, compostas, de verde-escuro brilhante e agrupam-se de três a cinco pares de folíolos.
As flores, muito pequenas, aparecem reunidas em cachos axilares cilíndricos, verde-arroxeados.
Os frutos
(alfarrobas) são vagens de 10 a 30 cm de comprido por 1,5 a 3 cm de largura. Apresentam-se coriáceas, espessas e indeiscentes. Inicialmente são verdes, passando a castanho-escuras quando atingem a plena maturidade.

As sementes de alfarroba são duríssimas. Têm forma ovóide, biconvexa e cor castanha.

A espécie é, salvo raras excepções, dióica, ou seja, os indivíduos femininos encontram-se separados dos masculinos. Para uma frutificação eficaz, é necessário uma árvore “macho” para 25 “fêmeas” (um verdadeiro harém!). Geralmente, os frutos só aparecem (nas fêmeas, obviamente) a partir dos 15 anos.

Da alfarroba aproveita-se, sobretudo, a farinha que é a parte obtida pela trituração e posterior torrefacção da polpa da vagem. Ela contém cerca de 50% de vários açúcares, para além de fibra (celulose), proteína, cálcio, fósforo, magnésio, silício, ferro, taninos, pró vitamina A e vitamina B1. 
O produto é amplamente utilizado na indústria alimentar, como sucedâneo do cacau, em pastelaria, alimentos dietéticos e papas para bebés. Podemos dizer que o consumo de alfarroba é mais saudável porque praticamente não possui gordura (o cacau tem cerca de 23% de gordura), nem glúten, nem cafeína, ou outro alcalóide. Em compensação, tem muito mais açúcares do que o cacau.
Da semente, que representa apenas 10% da vagem, extrai-se a goma, constituída por hidratos de carbono complexos com elevada qualidade como espessante, emulsionante e estabilizante, utilizando-se na indústria alimentar, farmacêutica, cosmética e têxtil.

Cada vagem costuma ter entre 10 e 16 sementes, chamadas quilates, de aspecto uniforme e peso quase invariável. Tal facto determinou o antiquíssimo uso dessas sementes para avaliar diamantes e ouro. Ainda hoje se utilizam os termos internacionais “kilat” e “karat”, provenientes da designação dos grãos de alfarroba.

Em fitoterapia e atendendo às propriedades medicinais da alfarrobeira que é hipertensora, laxante, antidiarreica e sedativa, ela está indicada para desinteria, prisão do ventre, enfermidades de brônquios, hiper acidez gástrica e sistema nervoso. Note-se que as vagens, quando verdes, são laxantes, mas quando castanhas, produzem o efeito inverso, isto é, prendem os intestinos.

Para terminar, não devemos esquecer que a alfarroba é excelente para elaborar rações para animais (com excepção das galinhas, devido ao alto teor de tanino) e que as alfarrobeiras, quer pela sombra que proporcionam, quer pela bela folhagem persistente, constituem apreciadas árvores ornamentais.

Miguel Boieiro

sexta-feira, 22 de junho de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 9 - Nogueira (by Miguel Boieiro)

Não sei se já repararam que os seres vegetais são, de diversas maneiras, o nosso amparo, o nosso sustento e constituem os elementos primordiais do nosso equilíbrio físico, psíquico, emocional e espiritual, enquanto vamos esperneando neste vale de lágrimas desde o berço ao caixão. Acham que exagero? Ora pensem bem no que a humanidade retira para seu proveito das ervas, arbustos e árvores sem nada lhes dar em troca. Se proliferam associações de amigos dos animais, por que não as de amigos dos vegetais para os compreender, proteger e estimar? 

Esta reflexão surgiu-me de supetão quando, em julho de 1997, andei a pé nas montanhas do Atlas até chegar ao cume do Tubkal. Foram 140 quilómetros caminhando e fruindo paisagens inesquecíveis. Só que, em determinada altura, fui-me abaixo. Uma dor persistente na perna direita tolhia-me a passada. Pensei em desistir, todavia ao atravessar uma floresta de nogueiras, colhi um ramo e com ele amanhei um cajado. Como por milagre, restabeleci-me e retomei a marcha devido àquele bordão improvisado ao qual devotei mil agradecimentos.

Eis pois o introito para discorrer sobre a nogueira, árvore de madeira dura e flexível, que dá pelo nome científico de Juglans regia e pertence à família das Juglandaceae. Sendo nativa da região balcânica, tem hoje um vasto habitat desde a China à Califórnia. É caducifólia e de crescimento rápido, podendo atingir 35 metros de altura. O seu robusto tronco pode superar 2 metros de diâmetro. As folhas são alternas, imparipinuladas (folíolos articulados lateralmente) e estipuladas (apêndices da base do pecíolo), começando por ser bronzeadas no início e depois, verde-escuras. Os ramos são grossos e a copa ampla e arredondada. 

Sendo uma espécie monóica as flores, dispostas em amentilhos, apresentam os dois sexos. As masculinas, pendentes nas axilas nos ramos do ano anterior, são em maior número como aliás, acontece geralmente com todos os seres vivos (existe um só óvulo e numerosos espermatozoides). As femininas, mais escassas, surgem nos ramos formados no próprio ano. Toda a gente conhece o fruto que é uma drupa subglobosa de cor verde que enegrece quando cai. No interior da noz, o miolo está dividido em quatro lóbulos de forma cerebroide.

As nogueiras detestam a poda e as suas raízes contêm uma substância abundante (juglona) que produz alelopatia, ou seja, inibem o desenvolvimento de outras plantas para reduzir a concorrência dos restantes vegetais. Tal fenómeno ocorre também com os eucaliptos.

As nozes são muito nutritivas contendo cerca de 60% de gordura composta por ácidos gordos insaturados, 15% de proteínas, vitaminas do complexo B, C e P, caroteno, cálcio, fósforo, zinco e cobre. As folhas integram tanino, ácidos gálico e elágico (propriedades antioxidantes) e juglona (princípio activo). Também o pericarpo da casca das nozes verdes (nogalina) é importante em fitoterapia, dado a sua riqueza em taninos de boa qualidade.

São imensas as propriedades curativas da nogueira: adstringente, antisséptica, cicatrizante, depurativa, tónica, diurética, vermífuga, hipoglicemiante (reduz o açúcar no sangue), etc.

O infuso das folhas e das cascas verdes é aconselhável para diabetes, fígado, reumatismo, raquitismo, obesidade e parasitas intestinais (10 a 20 g por litro de água). Externamente, em decocção (100 g por litro de água), para problemas cutâneos, queda do cabelo, caspa, conjuntivite, hemorroidal, uretrite, cistite. Em gargarejos, para irritações da boca, garganta e faringite.

A ingestão do miolo das nozes, para além de constituir um alimento saboroso utilizado desde há 9 mil anos, pode vantajosamente substituir a carne pelo seu conteúdo proteico. Favorece a memória e é útil para combater o esgotamento, os transtornos do sistema nervoso e o colesterol LDL.

Na gastronomia, as nozes são um ingrediente de luxo, quer para entradas, sopas, pratos principais ou sobremesas. Quando passo por Coimbra nunca me esqueço de entrar num estabelecimento na rua da Sofia que vende, ao peso, um delicioso bolo de nozes (passe a publicidade).

Convém que as nozes sejam guardadas ao abrigo do calor e da luz porque a sua gordura rança facilmente. Quando ingeridas devem ser bem mastigadas e ensalivadas. De notar, no entanto, a incompatibilidade que podem ter face aos remédios que contenham sais de ferro e determinados alcaloides.

Finalmente, há que referir a excelência da madeira com agradáveis tons avermelhados, brilho natural e textura homogénea, tenaz e resistente. Ela é utilizada em marcenaria de alto valor e muito adequada para polimentos. A este propósito, lembro a recente visita efetuada à catedral nova de Salamanca, cujo riquíssimo cadeiral está todo manufaturado em madeira de nogueira. Lindo!

Miguel Boieiro

segunda-feira, 21 de maio de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 8 - Curcuma (by Miguel Boieiro)

Tive o grato prazer de conviver com o médico Dr. Jorge Teixeira dos Santos e de adquirir o seu livro “A Chave da Saúde” com o sugestivo subtítulo “Mantenha-se saudável sem Medicamentos”. O Dr. Jorge Santosfoi investigador biomédico, epidemiologista, cientista e formadorda “American Medical and Health Corporation” na área do cancro e é altamente crítico em relação aos tratamentos sistemáticos efetuados por quimioterapia. Em alternativa, advoga terapias baseadas em produtos naturais com realce para a planta denominada Curcuma longa. Aguçou pois, a minha curiosidade e interesse para o estudo desta exótica medicinal, espontânea nas regiões tropicais.

Com o nome genérico de curcuma existem cerca de 130 espécies pertencentes à família das Zingiberaceae, de que também faz parte o gengibre. Vamo-nos deter apenas na Curcuma longa, também conhecida como açafrão-da-índia, açafrão-da-terra e turmérico. Ela é originária da Índia, sua principal produtora, consumidora e exportadora. Como se sabe, a Índia é, de longe e de longa data, a casa das especiarias; que o digam os navegadores portugueses que, nos séculos XV e XVI, avidamente as buscaram nesta parte remota do então mundo conhecido pelo ocidente. Ora, dos cerca de 3 milhões de toneladas de especiarias produzidas por ano na Índia, a curcuma representa a parte substancial, o que denota bem o seu valor. A denominação “curcuma” provém do sânscrito, enquanto o termo inglês “turmeric” foi herdado enviesamente da expressão latina “terra merita”.

A curcuma é uma herbácea perene e rizomatosa que vegeta nas regiões de climas quentes e húmidos com temperaturas entre os 20 e os 30 graus centígrados, necessitando de acentuada pluviosidade para proliferar. Conheço, no entanto, uma amiga que a conseguiu plantar na sua quinta, sita num dos sopés da cordilheira da Arrábida, beneficiando do microclima lá existente.
A curcuma chega a atingir um metro de altura e possui longas folhas alternadas, brilhantes, pecioladas, oblongo-lanceoladas que estreitam em ápice. As inflorescências, protegidas por dilatadas brácteas, são hermafroditas, verdes na parte de baixo, brancas ao centro e violáceas no cimo. Os rizomas, cilíndricos, muito ramificados e aromáticos, de amarelo-alaranjado intenso, constituem a parte utilizável desta planta. Secos e moídos formam um pó amarelo, divulgado erradamente como açafrão. Ele é o principal constituinte do caril e da “masala”. Estas misturas de várias especiarias são largamente utilizadas na gastronomia do oriente há mais de 2 mil anos. 
Foram determinados alguns elementos da complexa rede de componentes químicos da curcuma, nomeadamente: vitaminas B3, E e K, cálcio, ferro, magnésio, fósforo, potássio, zinco, princípios amargos, ácidos orgânicos, resinas e sobretudo, óleos, agrupando 34 essências.
Estão cientificamente comprovadas as propriedades anti-inflamatórias, antivirais, antibacterianas, antialérgicas, antioxidantes, anticancerígenas, colagogas, carminativas, reguladoras do sistema digestivo, apoiantes das funções do fígado e da bílis e estimulantes do sistema imunitário, desta notabilíssima planta.

Embora prossigam ainda aturadas investigações laboratoriais, são já imensas as indicações curativas que lhe atribuem para: artrite reumatoide, epilepsia, diarreia, amenorreia, hepatite, asma, acne, eczema, psoríase, diabetes, hidropisia, úlceras gastroduodenais, colesterol, doenças neuro degenerativas como o alzheimer e o cancro, etc.

A medicina chinesa e a ayurvédica usam abundantemente a curcumina para combater inúmeras maleitas. A curcumina, princípio ativo da curcuma, é um composto instável que não pode fabricar-se industrialmente, sendo apresentado em pó, gel ou pomada.

Na culinária é quase infindável o leque de utilizações em ementas dos países asiáticos, quer como corante alimentar, quer como especiaria gustativa, quer ainda como conservante, uma vez que reduz a ação bacteriana e suprime a oxidação das gorduras. Mesmo nos países ocidentais é cada vez mais corrente a sua utilização.

Especialmente no sudoeste asiático a curcuma tem papel relevante na preparação de champôs e perfumes e para tingir tecidos de seda e de algodão das vestes dos monges budistas e “saris”. Tem ainda funções folclóricas e religiosas e entra nos ritos funerários do hinduísmo e do budismo.

Determinante parece ser a sua atividade como inibidora do desenvolvimento dos tumores malignos

o que constitui uma solução para debelar o flagelo do cancro. As estatísticas mostram que a Índia possui, significativamente, uma das mais baixas taxas mundiais de cancros do cólon, próstata e pulmão. Isso quer dizer alguma coisa!

Para terminar, eis o preparo de uma simples infusão:

Deita-se 1 litro água fervente sobre 20 g de rizomas de curcuma, deixa-se repousar 15 minutos e toma-se duas chávenas por dia após cada uma das principais refeições.  

Miguel Boieiro

sexta-feira, 18 de maio de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 7 - Hortelã-pimenta (by Miguel Boieiro)

Em cada estação do ano, a vetusta Sociedade Portuguesa de Naturalogia, considerada uma das mais antigas associações ambientais existentes no nosso País, organiza um almoço de convívio para os seus sócios e amigos. Na elaboração das ementas vegetarianas, a SPN procura inovar e introduzir novidades gastronómicas para atrair os comensais e divulgar bons princípios da alimentação saudável. A bebida que acompanha as refeições é geralmente o suco de cenoura que os participantes sedentos, sobretudo no almoço de verão, esgotam num ápice. Para obviar aos inconvenientes, alguém teve a peregrina ideia de servir antes do sumo da cenoura, água aromatizada com folhas de hortelã-pimenta. A iniciativa foi excelente e resultou com agrado geral. Assim nasceu mais uma útil aplicação para esta versátil erva aromática.

A Menta x piperita é uma Lamiácea híbrida que resulta do cruzamento entre a Menta aquatica(hortelã-mourisca) e a Menta spicata(hortelã-vulgar). Todavia, para complicar, alguns botânicos referem que a hibridação é tripla, juntando-lhe também a Menta suaveolens, conhecida popularmente como mentrasto ou hortelã-de-burro. De resto, sublinhe-se que existem inúmeros cruzamentos entre as diferentes mentas, o que dificulta a sua rigorosa identificação. O sinal de multiplicação “X” foi a regra escolhida pelos cientistas da nomenclatura botânica para indicar que a planta é híbrida e que, consequentemente, a sua reprodução não se efetua por semente mas sim por via vegetativa (rebentos subterrâneos).

O que interessa verdadeiramente é que todas as subespécies de hortelã-pimenta, das cerca de três dezenas que se encontram caracterizadas, têm sensivelmente as mesmas propriedades aromáticas, medicinais, condimentares e ornamentais.

Trata-se de uma herbácea perene com raízes subterrâneas ramificadas. As folhas são opostas, peninérveas, lanceoladas ou ovadas, pecioladas e ligeiramente dentadas. Os caules, de cor arroxeada, apresentam-se canelados e podem atingir 60 cm de altura, culminando em flores violetas agrupadas em espiga. Os frutos (tetraquénios), com sementes estéreis, raramente aparecem.

A maior parte dos livros de fitoterapia mencionam a hortelã-pimenta. Veja-se, por exemplo, o que diz o antigo Manual de Medicina Doméstica do Dr. Samuel Maia que a designa de Mentha officinalis: “dela se extrai o mentol, de largo uso e muito apreciado como antisséptico do nariz, faringe, laringe, etc.. Internamente usa-se como aperitivo. Aproveitam-se as sumidades floridas com as folhas próximas que se cortam de agosto a setembro e a seguir se secam em tabuleiros de asseio rigoroso”. Eis o infuso recomendado: “10 g de sumidades secas num litro de água fervente. Infusa meia hora. Serve para gargarejos, inalações, lavagens das fossas nasais, corisas, rinites, faringites, rouquidão, ozena, sinusites”.

Análises químicas revelam que a hortelã-pimenta possui taninos, flavonóides, algumas substâncias amargas e sobretudo muitos óleos essências em que se sobrepõe o mentol.

Como propriedades medicinais são apontadas as seguintes: digestiva, carminativa, colerética, antissética, afrodisíaca, tonificante, analgésica, excitante, colagoga, estomáquica, vasodilatadora, descongestionadora nasal, etc.
 
Com tantas propriedades não admira a sua recomendação para múltiplos transtornos: falta de apetite, aerofagias, diarreias, cãibras, cefaleias, catarros, infeções bocais, herpes, cólon irritável, refluxo gastro esofágico, gastrite, vómitos, doença de crohn, pé-de-atleta, …
Pessoalmente, prefiro utilizar as folhas e as sumidades da planta fresca porque tenho a possibilidades de as colher nos sítios e épocas certas. Para quem não dispõe dessa possibilidade aconselha-se especiais cuidados: colher as folhas que não tenham ferrugem e submetê-las a uma corrente de ar quente e seco que não exceda a temperatura de 25 graus, guardando-as, depois de secas, em frascos escuros ao abrigo do ar e da luz.
Há imensas preparações fitoterapêuticas. Citemos apenas algumas:
  • Infuso da planta fresca (30 g num litro de água – bebida tónica e refrescante).
  • Licor (macerar durante 2 semanas 30 g das folhas num litro de álcool a 60º, coar, dissolver 250 g de açúcar de preferência mascavado).
  • Pedilúvio (banho de pés em infusão da planta – muito aconselhável para quem sofre de pé-de-atleta).
  • Chá” (deitar duas colherinhas da planta seca numa chávena de água a ferver e deixar macerar durante 10 minutos).
  • Álcool mentolado (dissolver a essência em álcool para fricções – para aliviar nevralgias, dores musculares e reumáticas).
  • Mastigação de folhas frescas para eliminar a halitose.
  • Compressas a fim de aliviar as dores de cabeça e as cãibras.

Para terminar, refira-se ainda que a hortelã-pimenta é também utilizada no fabrico de detergentes, cosméticos e pastas dentífricas.

Miguel Boieiro