Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Boieiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Miguel Boieiro. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Chuchu (texto 15 - by Miguel Boieiro)

Foram principalmente os Portugueses que, no século XVI, iniciaram uma verdadeira globalização da botânica, mormente das espécies de valor alimentar e terapêutico, ao transferirem plantas e sementes de Oriente para Ocidente e vice-versa, espalhando-as pelos cinco continentes. Lembrou-me um amigo goês que os nossos compatriotas levaram da Índia o café para o Brasil, onde era desconhecido. Hoje, o Brasil é o maior produtor mundial de café. Em contrapartida, trouxeram o caju, do Brasil para o subcontinente indiano e eis que atualmente a Índia é o maior produtor de caju. As navegações marítimas, “dando novos mundos ao mundo”, incrementaram e expandiram o intercâmbio das espécies. É exercício quase surrealista imaginar que na Idade Média os europeus sobreviviam sem batatas, tomates, feijões, abóboras, açúcar, café, chocolates … Seguidamente, as alterações climáticas, o comércio livre e os fenómenos da hibridação alargaram a proliferação das espécies pelas diversas regiões do planeta. Ainda me lembro dos tempos em que as bananas eram caríssimas e não chegavam à província. Foi há três dezenas de anos, se tanto, que provei, pela primeira vez um kiwi, fruta rara, diziam-me, que tinha trinta vezes mais vitamina C do que a laranja (!).

Desta feita, vamos abordar o chuchu, fruto-hortaliça, hoje vulgaríssimo, mas cujo cultivo era raro em Portugal até à primeira metade do século XX.

O chuchu, cuja nomenclatura científica é Sechium edule pertence à família botânica das Cucurbitaceae, como a abóbora, o pepino, a melancia ou o melão. É nativo do sul do México e dos países caribenhos onde se designa popularmente por chayote que, em língua indígena, significa “cabaça espinhosa”. Trata-se de uma herbácea trepadeira perene e monoica, que gosta de solos húmidos e azotados e medra favoravelmente entre os 13 e os 28 graus centígrados. Não resiste a geadas nem a grandes ventanias.

Possui caules híspidos que podem atingir mais de 10 metros de comprimento, dotados de gavinhas fendidas que surgem nos respetivos nós e se agarram a qualquer suporte. As folhas são inteiras, cordiformes, alternas, ásperas e pecioladas com nervações de três a cinco lóbulos. As flores, de amarelo suave ou esverdeado, são pequenas e aparecem nas axilas das folhas. Como a espécie é monoica, a mesma planta reúne flores masculinas aos cachos e flores femininas isoladas.

Os frutos são indeiscentes. Consoante as variedades, ficam redondos ou piriformes, verdes escuros, verdes-suaves ou amarelos. Pesam em média 500 g, mas alguns chegam a atingir 2 Kg. A casca pode ser lisa ou rugosa com frágeis espinhos. Cada planta produz, em média, cerca de 80 frutos.

Só existe uma semente por fruto, ao contrário das outras cucurbitáceas. A semente é achatada, oblonga, lisa e envolvida em polpa sucosa, germinando através de dois grandes cotilédones. É muito difícil extirpá-la.

As raízes são fibrosas. Nos climas quentes geram tubérculos ricos em amido.

É na gastronomia que o chuchu tem a sua maior utilidade e não só os frutos. Também as folhas tenras, os rebentos jovens e os tubérculos podem ser consumidos. Os frutos têm sabor suave e característico, substituindo, quando cozidos, a batata, a curgete e o nabo. Há também quem, com eles, confecione deliciosas compotas.

Os chuchus são ricos em fibras, aminoácidos, vitamina C, provitamina A, cálcio, magnésio, fósforo e sobretudo potássio. Desprovidos de gordura, integram plenamente as dietas de emagrecimento.

Possuem propriedades diuréticas, anti-inflamatórias, cardiovasculares e estimulantes do apetite. Dizem que favorecem a lactação e ajudam a debelar as constipações. Em cataplasmas, limpam e amaciam a cútis e o couro cabeludo.

Com as folhas pode-se fazer uma tisana que é boa para a arteriosclerose, a hipertensão e a dissolução dos cálculos renais.

Para terminar, acrescente-se mais uma curiosa utilidade conferida a esta planta: os habitantes dos países tropicais esfiapam os caules secos para, artesanalmente, fabricarem apreciados chapéus de palha.

Miguel Boieiro

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 13 - Urtiga (by Miguel Boieiro)

«Mandar alguém às urtigas», para que não nos aborreça mais, tornou-se um dito corrente. E se de facto, a expressão indica menosprezo por quem nos incomoda, também não coloca em alta conta, a urtiga, «erva desprezível» que queremos ver longe de nós. Trata-se de uma tremenda injustiça, aproveitamos para dizer e mais à frente explicaremos porquê.

Não restam dúvidas que a urtiga está disseminada por todo o lado e que as suas picadelas não são nada agradáveis. Por isso mesmo, é das plantas silvestres mais conhecidas. Diremos mesmo, não há ninguém que não a conheça. Para quê então, vir aqui falar dessa ervinha que toda a gente tem a «desdita» de conhecer? Na verdade, as aparências iludem, dado que a urtiga ocupa lugar de destaque na fitoterapia e não só.

Existem várias espécies de urtigas, mas todas elas pertencem à família das Urticáceas e têm propriedades praticamente iguais. Entre nós, a mais profusa é a Urtica dioica que alastra por todo o país. Chega a atingir 1,5 m de altura, tem caule ereto e folhas ovais, opostas e dentadas. As flores, de cor verde, ramificam-se em espigas colocadas nas axilas das folhas superiores. Toda a planta está coberta de finos pêlos cuja picada origina muita comichão devido a conter um produto histamínico. Esta propriedade constitui uma defesa da própria planta que assim fica menos apetecível para os diversos animais.

Para além da histamina, a urtiga contém numerosos compostos, ácido fórmico, caroteno, abundante clorofila, tanino, ferro, potássio, cálcio, enxofre, silício e é rica em vitaminas C, B2 e B6. Tal constituição implica variadíssimas propriedades, entre as quais, a de ser depurativa, anti anémica, hemostática, antidiabética, etc.

Vamos agora detalhar alguns dos seus potenciais usos, cujos efeitos benéficos se encontram comprovados, surpreendendo, por ventura os mais desprevenidos.

Em primeiro lugar, queremos referir que a cáustica picada da urtiga é extremamente útil para os doentes de reumatismo, paralisia e deficiente circulação sanguínea. Esfregar a pele com urtigas provoca uma excelente reação nas pessoas fracas e anémicas. Escritos antigos apontam mesmo, como muito eficaz, a fricção do baixo-ventre como meio de estimular as funções sexuais, quer para homens, quer para mulheres. Não custa nada fazer a experiência! 

(Um breve parêntesis para referir que quando esta minha croniqueta foi publicada no jornal local alguns idosos que se reúnem todos os dias no largo principal da vila abordaram-me alegremente falando deste pormenor. O artigo era vasto mas eles só se detiveram neste detalhe. Logo pensei: 
– Queres ver que eles já experimentaram ou estão a fim de experimentar!)

O «chá» de urtigas (30 g de folhas secas para um litro de água, ou 60 g da planta verde, o que é preferível) é bom para os diabéticos e anémicos. Para uso externo (irrigações) estanca as hemorragias. Melhor será, contudo, utilizar o suco da urtiga, tomando-se uma colher de sopa, duas ou três vezes ao dia. Há naturopatas que recomendam ainda a decocção, a maceração, ou o xarope.

Em cosmética é famosa a ação da urtiga para o tratamento do couro cabeludo e da queda do cabelo. Diversas loções capilares são preparadas com base nos seus princípios ativos.

Muita gente ficará espantada e incrédula se lhes dissermos que as urtigas podem ser consumidas como qualquer legume hortícola. Pois é verdade, a urtiga entra também na gastronomia onde poderá ter um lugar de maior destaque se as pessoas abandonarem preconceitos e tabus. Como? Muito simplesmente como se de nabiças ou de espinafres se tratasse. Basta passar as plantas por água tépida para que deixem de picar. Depois separam-se os talos (demasiado fibrosos) e aproveitam-se as folhas que são ótimas para a confeção de sopas e outros pratos cozinhados. Não conhecemos melhor esparregado do que o de urtigas. Devido ao alto teor de clorofila, o esparregado mantém uma cor verde agradável, ao contrário do que acontece em determinados restaurantes onde o verde vivo do esparregado se deve à utilização do bicarbonato de sódio. O sabor? É agradável e ninguém descobre que provém das urtigas, se não lhe dissermos.

Finalmente queremos ainda acrescentar que estudos efetuados acerca dos efeitos das associações vegetais revelaram que a presença da urtiga melhora o desenvolvimento de outras plantas, como as ervas aromáticas, cujo teor em essências sai reforçado

 Miguel Boieiro

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 12 - Arroz (by Miguel Boieiro)

Observo sempre com muita curiosidade a vegetação das terras por onde deambulo nas minhas viagens. Depois escolho uma das plantas encontradas, por uma questão de mera simpatia ou por a julgar mais significativa, para ser o alvo das minhas investigações botânicas.
Ora, estando mais de um mês no sul da China (ilha Hainan), qual foi a planta que aí encontrei mais abundante e representativa? Já calculam! Foi a do arroz, cereal que é a base da alimentação de 1400 milhões de chineses e de mais de metade da população mundial.
O arroz sempre me apaixonou e tenho para com ele um carinho e uma afinidade que vêm dos tempos de menino. O meu pai, embora analfabeto, concentrava um conjunto de saberes ancestrais e misteriosos que recebeu oralmente dos antepassados. Um dia, já perto do Natal, que para ele nada tinha a ver com o consumismo da festa da cristandade, trouxe da Barroca d’Alva umas sementinhas castanhas que colocou num pires com alguma água. Curioso, como sempre fui, todos os dias ia ver as sementes e acompanhei radiante a sua rápida germinação. Nasceu uma pequena seara de um verde tão bonito e mimoso, como jamais vira. E aí logo me dei conta de que estava perante algo imensamente mais sagrado do que os “meninos-jesuses” de todo o mundo, uma vez que “pais-natais” ainda não havia naqueles idos (que me desculpem os crentes mais radicais). 

A sensação do arroz como planta sagrada, tive-a, de novo, na China profunda, ao ver as searas amorosamente cuidadas e enquanto ia comendo arroz três vezes por dia durante um largo mês. Definitivamente, fiquei fã do arroz.

Há meia dúzia de anos comprei um livro que descrevia, tim-tim por tim-tim, este afamado comestível, terminando com dezenas de receitas. Emprestei-o a alguém e não voltei a reavê-lo. Paciência! Que a esse alguém lhe faça bom proveito, são os meus votos sinceros. Recordo, no entanto, que lá se referia o nosso país como o maior consumidor europeu do precioso cereal: 17 kg por ano, per capita. A seguir vinha a Espanha com 9 kg e muito atrás, todos os outros. Num almoço ocasional com o embaixador da Coreia do Norte perguntei-lhe, qual seria o consumo médio por pessoa na RPD da Coreia. Fez umas contas rápidas e de imediato me respondeu: 150 kg! 
Existem cerca de 8 mil variedades de arroz, mas basicamente elas integram sete espécies, sendo a mais conhecida a Oryza sativa (arroz asiático). Cada vez mais apreciadas são as variedades perfumadas, como o basmati, o jasmim, o vermelho e o dourado, este, manipulado geneticamente. Entre nós, as mais conhecidas são o carolino e o agulha.
 
Como se sabe, o arroz é uma gramínea de origem asiática. Julga-se que é usado como alimento há perto de 7 mil anos, fazendo parte do quotidiano dos países orientais que são, de longe, os seus principais produtores e consumidores.
A planta tem um cultivo anual em terras alagadas, mas pode sobreviver por vários anos nas regiões tropicais. 
O arroz é um dos alimentos mais equilibrados que se conhece. Contém hidratos de carbono, proteínas, vitaminas B1, B2, B3, cálcio, magnésio, manganés, fosforo, zinco, ferro, proteínas, pouca gordura e nenhum glúten. No que respeita às proteínas, é certo que não possui a totalidade dos aminoácidos essenciais, mas combina muito bem com todas as outras fontes proteicas.
O arroz integral, ou seja o arroz em que apenas se retira a casca exterior (celulose), ficando com uma película fina acastanhada, é o melhor para uma nutrição saudável. Essa película contém fibra e maior quantidade de proteína e de gordura, alimentando muito mais. Se bem mastigado, é de fácil digestão, combatendo o colesterol, a arteriosclerose, a diabetes, a prisão do ventre e outras disfunções do aparelho digestivo. Além disso, contém selénio que é um antioxidante natural que beneficia o sistema imunológico. Quem consome apenas arroz normal, leva algum tempo a habituar-se ao integral, mas depois acaba por o achar mais saboroso que o chamado arroz branco. 
Quanto às formas de cozinhar, elas variam muito, de país para país e de região para região. Na China o arroz é cozido a vapor o que, de entre outras vantagens, fica mais a jeito para ser comido com os tradicionais pauzinhos, como aliás, sempre assim fiz.
Para mim, que gosto dele bem cozido mas não empapado, a melhor maneira é usar o forno solar: uma parte de arroz para três de água, um pouco de azeite e uma pitada de sal, sol que baste e passadas 2 horas, está pronto. Vantagens: não esturra, não pega, não endurece e é claro, não se despende energia elétrica nem gás, o que, em tempos de aguda crise, não é de somenos. 
 Miguel Boieiro

sexta-feira, 20 de julho de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 11 - Borragem (by Miguel Boieiro)

Os amantes da Arrábida, que procuram com deleite os encantos desta bela serra durante todo o ano, encontram já em fins de fevereiro, nas cercanias de Azeitão, a borragem florida. Indubitavelmente, dos azuis mais vistosos que a natureza ostenta, em forma de estrela e aos cachos, as flores de borragem têm inspirado artistas desde remotas eras. E se em terras mais frias a floração só acontece lá para os meses de maio ou junho, na Arrábida ela vem muito cedo, brindando as abelhas que a buscam com avidez para produzir o maravilhoso néctar.

A Borago officinalis é uma herbácea anual da família das Borragináceas, cujo porte majestoso se eleva por vezes a 60 cm do solo se este for rico em húmus e o local soalheiro. A planta apresenta-se simples ou ramificada, com caule cilíndrico e grandes folhas enrugadas de forma elíptica e pecíolo curto. Tanto o caule como as folhas estão cobertos de pêlos que se transformam em finos espinhos à medida que a planta atinge maturidade. As flores, possuindo longos pecíolos, são de um azul muito vivo e abrem em estrela, como já se disse. Têm cinco pétalas ligadas entre si com anteras pontiagudas de cor escura.

Segundo se julga, a borragem é oriunda da região mediterrânica. No nosso país é frequente em terrenos incultos, suportando altitudes até aos 1800 metros. Em França há quem a cultive nas hortas como planta comestível, quando as suas folhas tenras ainda se encontram desprovidas de espinhos. Fica bem, quer na confeção de sopas, quer na preparação de saladas onde o seu delicado sabor a pepino se sobrepõe. As flores podem ser também utilizadas em culinária pelo seu aspecto agradavelmente decorativo.

Brendan Lehane, na obra «The Power of Plants», aponta uma curiosa associação entre a borragem e o morangueiro. Segundo este autor, a presença da borragem incrementa extraordinariamente a produção de morangos.

No que respeita à fitoterapia,a borragem é uma das plantas mais aconselhadas. A sua composição química integra mucilagens, nitrato de potássio, tanino, saponósidos, resinas e vitamina C.

É extremamente eficaz para combater as bronquites, os resfriamentos e as tosses rebeldes. Como sudorífico é utilizado desde tempos muito antigos, tendo portanto, ação benéfica sobre os rins e a pele. Além disso, a planta é também diurética, emoliente, expectorante e peitoral. O «chá», que deve ser tomado bem quente e adoçado com mel, prepara-se a partir de 30 g de flores, ou 50 g de folhas e caules, para um litro de água. Convém tomar-se várias chávenas por dia no intervalo das refeições. De preferência devemos usar a planta verde, pois desta forma, possui muito mais princípios ativos.

Outra maneira de usar a borragem é através de cataplasmas das folhas finamente migadas que atuam como calmante e descongestionante para queimaduras, abcessos, gota e reumatismo.

Finalmente, referimos ainda as potencialidades da borragem na cosmética, visto possuir as mesmas propriedades do pepino para limpar e tonificar a pele. O suco, que é bastante abundante, desimpede os poros da epiderme, dilatando-os e oleando-os. Para confecionar máscaras faciais é ótimo, dado ser mais suportável para cútis delicadas do que muitos outros preparados.

Miguel Boieiro

sexta-feira, 29 de junho de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 10 - Alfarrobeira (by Miguel Boieiro)

Adoro jardins botânicos e visito-os, sempre que possível, em vários recantos do mundo. É uma mania como outra qualquer, mas que me incentiva o desejo de conhecer, cada vez melhor, o reino fascinante da flora. Em 2002, estive em Washington e logo que pude, fui visitar o “The U.S. National Botanic Garden”. Quase todo com estufas climatizado e relativamente pequeno, comparado com outros congéneres, o atraente espaço estava dotado de pormenorizadas descrições científicas. Uma, das que me sensibilizaram, referia a alfarrobeira, “planta exótica e quase sobrenatural, face às suas múltiplas virtudes”. E lá estava a árvore, ainda pequena, numa estufa envidraçada, objeto de grande admiração dos curiosos visitantes. Lembrei-me então de que, quando miúdo, muito gostava eu de roer as vagens de alfarroba que o meu avô comprava para dar ao cavalo. Planta exótica, qual quê? Basta ir à nossa Arrábida e, nas cercanias do Portinho, divisar alfarrobeiras por todo o lado…
Contudo, a raridade da alfarrobeira à escala planetária, tem a ver com as exigências climatéricas desta árvore da bacia mediterrânica, conhecida desde remotas eras. Ela gosta de climas secos e suaves e não aguenta geadas. No que concerne ao nosso País e para além da vertente sul da serra da Arrábida, as alfarrobeiras concentram-se, sobretudo, no barrocal algarvio, onde assumem razoável expressão económica.

A Ceratonia siliqua L. é uma leguminosa de folha perene que logra atingir 10 metros de altura e durar cerca de 500 anos.

Possui tronco irregular, cinzento, com ramagens largas e pendentes. As folhas são elípticas, alternas, coriáceas, compostas, de verde-escuro brilhante e agrupam-se de três a cinco pares de folíolos.
As flores, muito pequenas, aparecem reunidas em cachos axilares cilíndricos, verde-arroxeados.
Os frutos
(alfarrobas) são vagens de 10 a 30 cm de comprido por 1,5 a 3 cm de largura. Apresentam-se coriáceas, espessas e indeiscentes. Inicialmente são verdes, passando a castanho-escuras quando atingem a plena maturidade.

As sementes de alfarroba são duríssimas. Têm forma ovóide, biconvexa e cor castanha.

A espécie é, salvo raras excepções, dióica, ou seja, os indivíduos femininos encontram-se separados dos masculinos. Para uma frutificação eficaz, é necessário uma árvore “macho” para 25 “fêmeas” (um verdadeiro harém!). Geralmente, os frutos só aparecem (nas fêmeas, obviamente) a partir dos 15 anos.

Da alfarroba aproveita-se, sobretudo, a farinha que é a parte obtida pela trituração e posterior torrefacção da polpa da vagem. Ela contém cerca de 50% de vários açúcares, para além de fibra (celulose), proteína, cálcio, fósforo, magnésio, silício, ferro, taninos, pró vitamina A e vitamina B1. 
O produto é amplamente utilizado na indústria alimentar, como sucedâneo do cacau, em pastelaria, alimentos dietéticos e papas para bebés. Podemos dizer que o consumo de alfarroba é mais saudável porque praticamente não possui gordura (o cacau tem cerca de 23% de gordura), nem glúten, nem cafeína, ou outro alcalóide. Em compensação, tem muito mais açúcares do que o cacau.
Da semente, que representa apenas 10% da vagem, extrai-se a goma, constituída por hidratos de carbono complexos com elevada qualidade como espessante, emulsionante e estabilizante, utilizando-se na indústria alimentar, farmacêutica, cosmética e têxtil.

Cada vagem costuma ter entre 10 e 16 sementes, chamadas quilates, de aspecto uniforme e peso quase invariável. Tal facto determinou o antiquíssimo uso dessas sementes para avaliar diamantes e ouro. Ainda hoje se utilizam os termos internacionais “kilat” e “karat”, provenientes da designação dos grãos de alfarroba.

Em fitoterapia e atendendo às propriedades medicinais da alfarrobeira que é hipertensora, laxante, antidiarreica e sedativa, ela está indicada para desinteria, prisão do ventre, enfermidades de brônquios, hiper acidez gástrica e sistema nervoso. Note-se que as vagens, quando verdes, são laxantes, mas quando castanhas, produzem o efeito inverso, isto é, prendem os intestinos.

Para terminar, não devemos esquecer que a alfarroba é excelente para elaborar rações para animais (com excepção das galinhas, devido ao alto teor de tanino) e que as alfarrobeiras, quer pela sombra que proporcionam, quer pela bela folhagem persistente, constituem apreciadas árvores ornamentais.

Miguel Boieiro

sexta-feira, 22 de junho de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 9 - Nogueira (by Miguel Boieiro)

Não sei se já repararam que os seres vegetais são, de diversas maneiras, o nosso amparo, o nosso sustento e constituem os elementos primordiais do nosso equilíbrio físico, psíquico, emocional e espiritual, enquanto vamos esperneando neste vale de lágrimas desde o berço ao caixão. Acham que exagero? Ora pensem bem no que a humanidade retira para seu proveito das ervas, arbustos e árvores sem nada lhes dar em troca. Se proliferam associações de amigos dos animais, por que não as de amigos dos vegetais para os compreender, proteger e estimar? 

Esta reflexão surgiu-me de supetão quando, em julho de 1997, andei a pé nas montanhas do Atlas até chegar ao cume do Tubkal. Foram 140 quilómetros caminhando e fruindo paisagens inesquecíveis. Só que, em determinada altura, fui-me abaixo. Uma dor persistente na perna direita tolhia-me a passada. Pensei em desistir, todavia ao atravessar uma floresta de nogueiras, colhi um ramo e com ele amanhei um cajado. Como por milagre, restabeleci-me e retomei a marcha devido àquele bordão improvisado ao qual devotei mil agradecimentos.

Eis pois o introito para discorrer sobre a nogueira, árvore de madeira dura e flexível, que dá pelo nome científico de Juglans regia e pertence à família das Juglandaceae. Sendo nativa da região balcânica, tem hoje um vasto habitat desde a China à Califórnia. É caducifólia e de crescimento rápido, podendo atingir 35 metros de altura. O seu robusto tronco pode superar 2 metros de diâmetro. As folhas são alternas, imparipinuladas (folíolos articulados lateralmente) e estipuladas (apêndices da base do pecíolo), começando por ser bronzeadas no início e depois, verde-escuras. Os ramos são grossos e a copa ampla e arredondada. 

Sendo uma espécie monóica as flores, dispostas em amentilhos, apresentam os dois sexos. As masculinas, pendentes nas axilas nos ramos do ano anterior, são em maior número como aliás, acontece geralmente com todos os seres vivos (existe um só óvulo e numerosos espermatozoides). As femininas, mais escassas, surgem nos ramos formados no próprio ano. Toda a gente conhece o fruto que é uma drupa subglobosa de cor verde que enegrece quando cai. No interior da noz, o miolo está dividido em quatro lóbulos de forma cerebroide.

As nogueiras detestam a poda e as suas raízes contêm uma substância abundante (juglona) que produz alelopatia, ou seja, inibem o desenvolvimento de outras plantas para reduzir a concorrência dos restantes vegetais. Tal fenómeno ocorre também com os eucaliptos.

As nozes são muito nutritivas contendo cerca de 60% de gordura composta por ácidos gordos insaturados, 15% de proteínas, vitaminas do complexo B, C e P, caroteno, cálcio, fósforo, zinco e cobre. As folhas integram tanino, ácidos gálico e elágico (propriedades antioxidantes) e juglona (princípio activo). Também o pericarpo da casca das nozes verdes (nogalina) é importante em fitoterapia, dado a sua riqueza em taninos de boa qualidade.

São imensas as propriedades curativas da nogueira: adstringente, antisséptica, cicatrizante, depurativa, tónica, diurética, vermífuga, hipoglicemiante (reduz o açúcar no sangue), etc.

O infuso das folhas e das cascas verdes é aconselhável para diabetes, fígado, reumatismo, raquitismo, obesidade e parasitas intestinais (10 a 20 g por litro de água). Externamente, em decocção (100 g por litro de água), para problemas cutâneos, queda do cabelo, caspa, conjuntivite, hemorroidal, uretrite, cistite. Em gargarejos, para irritações da boca, garganta e faringite.

A ingestão do miolo das nozes, para além de constituir um alimento saboroso utilizado desde há 9 mil anos, pode vantajosamente substituir a carne pelo seu conteúdo proteico. Favorece a memória e é útil para combater o esgotamento, os transtornos do sistema nervoso e o colesterol LDL.

Na gastronomia, as nozes são um ingrediente de luxo, quer para entradas, sopas, pratos principais ou sobremesas. Quando passo por Coimbra nunca me esqueço de entrar num estabelecimento na rua da Sofia que vende, ao peso, um delicioso bolo de nozes (passe a publicidade).

Convém que as nozes sejam guardadas ao abrigo do calor e da luz porque a sua gordura rança facilmente. Quando ingeridas devem ser bem mastigadas e ensalivadas. De notar, no entanto, a incompatibilidade que podem ter face aos remédios que contenham sais de ferro e determinados alcaloides.

Finalmente, há que referir a excelência da madeira com agradáveis tons avermelhados, brilho natural e textura homogénea, tenaz e resistente. Ela é utilizada em marcenaria de alto valor e muito adequada para polimentos. A este propósito, lembro a recente visita efetuada à catedral nova de Salamanca, cujo riquíssimo cadeiral está todo manufaturado em madeira de nogueira. Lindo!

Miguel Boieiro

segunda-feira, 21 de maio de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 8 - Curcuma (by Miguel Boieiro)

Tive o grato prazer de conviver com o médico Dr. Jorge Teixeira dos Santos e de adquirir o seu livro “A Chave da Saúde” com o sugestivo subtítulo “Mantenha-se saudável sem Medicamentos”. O Dr. Jorge Santosfoi investigador biomédico, epidemiologista, cientista e formadorda “American Medical and Health Corporation” na área do cancro e é altamente crítico em relação aos tratamentos sistemáticos efetuados por quimioterapia. Em alternativa, advoga terapias baseadas em produtos naturais com realce para a planta denominada Curcuma longa. Aguçou pois, a minha curiosidade e interesse para o estudo desta exótica medicinal, espontânea nas regiões tropicais.

Com o nome genérico de curcuma existem cerca de 130 espécies pertencentes à família das Zingiberaceae, de que também faz parte o gengibre. Vamo-nos deter apenas na Curcuma longa, também conhecida como açafrão-da-índia, açafrão-da-terra e turmérico. Ela é originária da Índia, sua principal produtora, consumidora e exportadora. Como se sabe, a Índia é, de longe e de longa data, a casa das especiarias; que o digam os navegadores portugueses que, nos séculos XV e XVI, avidamente as buscaram nesta parte remota do então mundo conhecido pelo ocidente. Ora, dos cerca de 3 milhões de toneladas de especiarias produzidas por ano na Índia, a curcuma representa a parte substancial, o que denota bem o seu valor. A denominação “curcuma” provém do sânscrito, enquanto o termo inglês “turmeric” foi herdado enviesamente da expressão latina “terra merita”.

A curcuma é uma herbácea perene e rizomatosa que vegeta nas regiões de climas quentes e húmidos com temperaturas entre os 20 e os 30 graus centígrados, necessitando de acentuada pluviosidade para proliferar. Conheço, no entanto, uma amiga que a conseguiu plantar na sua quinta, sita num dos sopés da cordilheira da Arrábida, beneficiando do microclima lá existente.
A curcuma chega a atingir um metro de altura e possui longas folhas alternadas, brilhantes, pecioladas, oblongo-lanceoladas que estreitam em ápice. As inflorescências, protegidas por dilatadas brácteas, são hermafroditas, verdes na parte de baixo, brancas ao centro e violáceas no cimo. Os rizomas, cilíndricos, muito ramificados e aromáticos, de amarelo-alaranjado intenso, constituem a parte utilizável desta planta. Secos e moídos formam um pó amarelo, divulgado erradamente como açafrão. Ele é o principal constituinte do caril e da “masala”. Estas misturas de várias especiarias são largamente utilizadas na gastronomia do oriente há mais de 2 mil anos. 
Foram determinados alguns elementos da complexa rede de componentes químicos da curcuma, nomeadamente: vitaminas B3, E e K, cálcio, ferro, magnésio, fósforo, potássio, zinco, princípios amargos, ácidos orgânicos, resinas e sobretudo, óleos, agrupando 34 essências.
Estão cientificamente comprovadas as propriedades anti-inflamatórias, antivirais, antibacterianas, antialérgicas, antioxidantes, anticancerígenas, colagogas, carminativas, reguladoras do sistema digestivo, apoiantes das funções do fígado e da bílis e estimulantes do sistema imunitário, desta notabilíssima planta.

Embora prossigam ainda aturadas investigações laboratoriais, são já imensas as indicações curativas que lhe atribuem para: artrite reumatoide, epilepsia, diarreia, amenorreia, hepatite, asma, acne, eczema, psoríase, diabetes, hidropisia, úlceras gastroduodenais, colesterol, doenças neuro degenerativas como o alzheimer e o cancro, etc.

A medicina chinesa e a ayurvédica usam abundantemente a curcumina para combater inúmeras maleitas. A curcumina, princípio ativo da curcuma, é um composto instável que não pode fabricar-se industrialmente, sendo apresentado em pó, gel ou pomada.

Na culinária é quase infindável o leque de utilizações em ementas dos países asiáticos, quer como corante alimentar, quer como especiaria gustativa, quer ainda como conservante, uma vez que reduz a ação bacteriana e suprime a oxidação das gorduras. Mesmo nos países ocidentais é cada vez mais corrente a sua utilização.

Especialmente no sudoeste asiático a curcuma tem papel relevante na preparação de champôs e perfumes e para tingir tecidos de seda e de algodão das vestes dos monges budistas e “saris”. Tem ainda funções folclóricas e religiosas e entra nos ritos funerários do hinduísmo e do budismo.

Determinante parece ser a sua atividade como inibidora do desenvolvimento dos tumores malignos

o que constitui uma solução para debelar o flagelo do cancro. As estatísticas mostram que a Índia possui, significativamente, uma das mais baixas taxas mundiais de cancros do cólon, próstata e pulmão. Isso quer dizer alguma coisa!

Para terminar, eis o preparo de uma simples infusão:

Deita-se 1 litro água fervente sobre 20 g de rizomas de curcuma, deixa-se repousar 15 minutos e toma-se duas chávenas por dia após cada uma das principais refeições.  

Miguel Boieiro

sexta-feira, 18 de maio de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 7 - Hortelã-pimenta (by Miguel Boieiro)

Em cada estação do ano, a vetusta Sociedade Portuguesa de Naturalogia, considerada uma das mais antigas associações ambientais existentes no nosso País, organiza um almoço de convívio para os seus sócios e amigos. Na elaboração das ementas vegetarianas, a SPN procura inovar e introduzir novidades gastronómicas para atrair os comensais e divulgar bons princípios da alimentação saudável. A bebida que acompanha as refeições é geralmente o suco de cenoura que os participantes sedentos, sobretudo no almoço de verão, esgotam num ápice. Para obviar aos inconvenientes, alguém teve a peregrina ideia de servir antes do sumo da cenoura, água aromatizada com folhas de hortelã-pimenta. A iniciativa foi excelente e resultou com agrado geral. Assim nasceu mais uma útil aplicação para esta versátil erva aromática.

A Menta x piperita é uma Lamiácea híbrida que resulta do cruzamento entre a Menta aquatica(hortelã-mourisca) e a Menta spicata(hortelã-vulgar). Todavia, para complicar, alguns botânicos referem que a hibridação é tripla, juntando-lhe também a Menta suaveolens, conhecida popularmente como mentrasto ou hortelã-de-burro. De resto, sublinhe-se que existem inúmeros cruzamentos entre as diferentes mentas, o que dificulta a sua rigorosa identificação. O sinal de multiplicação “X” foi a regra escolhida pelos cientistas da nomenclatura botânica para indicar que a planta é híbrida e que, consequentemente, a sua reprodução não se efetua por semente mas sim por via vegetativa (rebentos subterrâneos).

O que interessa verdadeiramente é que todas as subespécies de hortelã-pimenta, das cerca de três dezenas que se encontram caracterizadas, têm sensivelmente as mesmas propriedades aromáticas, medicinais, condimentares e ornamentais.

Trata-se de uma herbácea perene com raízes subterrâneas ramificadas. As folhas são opostas, peninérveas, lanceoladas ou ovadas, pecioladas e ligeiramente dentadas. Os caules, de cor arroxeada, apresentam-se canelados e podem atingir 60 cm de altura, culminando em flores violetas agrupadas em espiga. Os frutos (tetraquénios), com sementes estéreis, raramente aparecem.

A maior parte dos livros de fitoterapia mencionam a hortelã-pimenta. Veja-se, por exemplo, o que diz o antigo Manual de Medicina Doméstica do Dr. Samuel Maia que a designa de Mentha officinalis: “dela se extrai o mentol, de largo uso e muito apreciado como antisséptico do nariz, faringe, laringe, etc.. Internamente usa-se como aperitivo. Aproveitam-se as sumidades floridas com as folhas próximas que se cortam de agosto a setembro e a seguir se secam em tabuleiros de asseio rigoroso”. Eis o infuso recomendado: “10 g de sumidades secas num litro de água fervente. Infusa meia hora. Serve para gargarejos, inalações, lavagens das fossas nasais, corisas, rinites, faringites, rouquidão, ozena, sinusites”.

Análises químicas revelam que a hortelã-pimenta possui taninos, flavonóides, algumas substâncias amargas e sobretudo muitos óleos essências em que se sobrepõe o mentol.

Como propriedades medicinais são apontadas as seguintes: digestiva, carminativa, colerética, antissética, afrodisíaca, tonificante, analgésica, excitante, colagoga, estomáquica, vasodilatadora, descongestionadora nasal, etc.
 
Com tantas propriedades não admira a sua recomendação para múltiplos transtornos: falta de apetite, aerofagias, diarreias, cãibras, cefaleias, catarros, infeções bocais, herpes, cólon irritável, refluxo gastro esofágico, gastrite, vómitos, doença de crohn, pé-de-atleta, …
Pessoalmente, prefiro utilizar as folhas e as sumidades da planta fresca porque tenho a possibilidades de as colher nos sítios e épocas certas. Para quem não dispõe dessa possibilidade aconselha-se especiais cuidados: colher as folhas que não tenham ferrugem e submetê-las a uma corrente de ar quente e seco que não exceda a temperatura de 25 graus, guardando-as, depois de secas, em frascos escuros ao abrigo do ar e da luz.
Há imensas preparações fitoterapêuticas. Citemos apenas algumas:
  • Infuso da planta fresca (30 g num litro de água – bebida tónica e refrescante).
  • Licor (macerar durante 2 semanas 30 g das folhas num litro de álcool a 60º, coar, dissolver 250 g de açúcar de preferência mascavado).
  • Pedilúvio (banho de pés em infusão da planta – muito aconselhável para quem sofre de pé-de-atleta).
  • Chá” (deitar duas colherinhas da planta seca numa chávena de água a ferver e deixar macerar durante 10 minutos).
  • Álcool mentolado (dissolver a essência em álcool para fricções – para aliviar nevralgias, dores musculares e reumáticas).
  • Mastigação de folhas frescas para eliminar a halitose.
  • Compressas a fim de aliviar as dores de cabeça e as cãibras.

Para terminar, refira-se ainda que a hortelã-pimenta é também utilizada no fabrico de detergentes, cosméticos e pastas dentífricas.

Miguel Boieiro

segunda-feira, 9 de abril de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 6 - Briónia (by Miguel Boieiro)

Há tempos, estimado amigo, também apaixonado pela botânica e pela fitoterapia, falou-me da briónia, com grande entusiasmo. Dizia ele que as bagas da briónia o tinham curado definitivamente de arreliadoras infeções cutâneas e passaram, doravante, a integrar a sua provisão de plantas medicinais.
Mais uma vez se confirma que muitas plantas tóxicas são, de facto, as mais eficazes para resolver certos problemas de saúde. Os pacientes devem, contudo, ter muito cuidado com o seu uso e evitar as aplicações internas.

Ora, as espécies “bryonia”, de que a mais conhecida e espontânea no nosso País, é a Bryonia dioica (Jacq), cucurbitácea rústica e perene que trepa, através de gavinhas, pelos arbustos que se encontram em valados e sebes, chegando a atingir três metros. A sua raiz é enorme, mastodôntica, segundo a designação da obra italiana “Il Talismano –  Piante Officinali”, pois chega a pesar três quilos, o que é surpreendente numa plantinha aparentemente tão frágil. As folhas são pecioladas, palmadas e dentadas, possuindo cinco lóbulos como as da videira. As flores são pequenas, campanuladas, amareladas, dióicas (as masculinas estão separadas das femininas, em diferentes pés) e surgem nas axilas das folhas. Os frutos são bagas vermelhas do tamanho de ervilhas, muito atraentes, mas venenosas, que aparecem no outono e persistem, mesmo quando as folhas secam.

A briónia contém resinas, taninos, ácidos gordos e diversos constituintes tóxicos (alcalóides), dos quais, o mais importante é a brionina.

A planta, fundamentalmente a raiz e as bagas, possui propriedades antirreumáticas, laxantes, purgantes, diuréticas, vermífugas, vesicantes, expectorantes e reguladoras da circulação sanguínea.

A polpa da raiz e o respetivo suco servem para preparar cataplasmas que se aplicam em reumatismos, nevralgias e contusões – “Erbe Buone per la Salute” da editora italiana, Demetra.
As pastilhas homeopáticas ”Bryonia alba D4” são usadas para os acessos de febre, os reumatismos musculares e articulares, o lumbago e a ciática – “Ces plantes qui guérissent”, de Robert Quinche.
O grande Paracelso, no século XVI, em “As Plantas Mágicas”, para combater inchaços da garganta, do ventre e das pernas, recomenda o seguinte: fritar 25 gramas de raiz de briónia em 2,5 dl de azeite puro, até que o preparado fique escuro. Aplicar, friccionando sobre a parte doente e em seguida, colocar uma ligadura.

Abdelhaï Sijelmassi, em “Les Plantes Médicinales du Maroc”, diz apenas que a briónia é um purgante drástico e perigoso e que 15 bagas são mortais para uma criança (40 para um adulto).

Oliveira Feijão, em “Medicina pelas Plantas”, prescreve o uso interno da raiz em pó (0,5 a 3 g).
João Ribeiro Nunes, em “Medicina Popular – Tratamento pelas Plantas Medicinais”, aponta várias mezinhas, entre as quais, para a cura da hidropisia, a asma e a bronquite, a maceração de 50 gde bagas para um litro de vinho, tomando-se duas ou três colheres diariamente, antes das refeições.
O “Manual de Medicina Doméstica” de Samuel Maia, refere o tratamento da sarna, através de uma pomada confeccionada com 5 g de raiz de briónia em pó e 30 g de banha benzoinada, para friccionar à noite, durante cinco dias.
Pessoalmente, tenho por hábito fazer uma loção de bagas maceradas em álcool a 70 graus, a fim de friccionar as partes do corpo afetadas pelo reumatismo.
Recordando, mais uma vez, que a briónia é tóxica e que, portanto, não é aconselhada para auto terapias internas, refiro um espantoso uso popular, de que tenho conhecimento: famílias da Beira Baixa cozinham os rebentos tenros da briónia e comem-nos como se como se fossem espargos. E ainda não morreram!

Miguel Boieiro

sexta-feira, 6 de abril de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 5 - Cavalinha (by Miguel Boieiro)

Pela grande variedade de solos a que se juntam diversos microclimas, o nosso País pode justamente considerar-se uma das reservas mundiais da flora medicinal, dado que dispõe de ótimas condições para a produção de variadíssimas espécies. Daí que muito dificilmente se possa compreender que se importem determinadas plantas medicinais e seus extratos, de países onde, por vezes, é necessário criar condições artificiais de produção. 

Sobre a planta medicinal que iremos abordar, podemos afirmar que só o concelho de Sesimbra possui, espontaneamente, quantidade suficiente para abastecer todo o mercado europeu. E isto de uma forma absolutamente natural: não é preciso semear, nem adubar, nem sachar, basta simplesmente colher.

Estamos a falar da cavalinha ou Equisetum arvense L., planta vivaz da família das Equisetáceas que teve a sua origem em épocas geológicas muito recuadas. Esta planta primitiva, autêntico fóssil vivo, não floresce, não possuindo, portanto, sementes. A reprodução processa-se através de esporos contidos nos esporângios que se encontram agrupados na espiga com que termina o primeiro caule da planta. Feita a dispersão dos esporos, os caules primitivos, de cor acastanhada, murcham. Nascem então outros caules verde claros, canelados, ocos e ramificados que se dividem em segmentos separados por pequenos nós. Os segundos caules, estéreis, que chegam a atingir mais de um metro de altura, são os que possuem atributos medicinais.

A cavalinha propaga-se com muita facilidade em solos arenosos e húmidos, constituindo uma erva daninha, flagelo dos agricultores. Deve ser colhida no verão e seca à sombra. Depois de cortada em pequenos troços, convém guardá-la em recipientes herméticos. Conserva as suas propriedades durante alguns anos.
Os naturopatas são unânimes acerca das extraordinárias virtudes curativas da cavalinha, a qual contém potássio, ferro, sódio, magnésio, enxofre e sobretudo, silício. O famoso naturista Kneipp considerava a cavalinha, uma das doze plantas medicinais mais incontornáveis e recomendava-a para o combate às seguintes enfermidades: gripes, catarros, resfriados, reumatismos, gota, hidropisia, ciática, inchações, herpes, cárie, pés gretados, hemorroidal, cálculos, doenças dos rins, fígado, baço e bexiga, hemorragias e cancro. É na realidade uma lista impressionante mas ainda assim, incompleta. O espanhol Ferran Comas aconselha-a para o bócio, as inflamações oculares e a tuberculose. O médico chileno Lazaeta Acharan gaba a sua eficácia extraordinária na cicatrização de todo o tipo de feridas.
A rapidez com que estanca qualquer hemorragia é espectacular. Também não parece haver dúvidas de que a cavalinha limpa as impurezas do organismo, essencialmente por ação do silício solúvel de que é bastante rica. 

O modo mais divulgado para beneficiar dos princípios ativos da Equisetum consiste em preparar uma infusão deixando ferver a planta pelo menos dez minutos. É conveniente não coar de imediato, pois a cavalinha continua a libertar princípios ativos após a fervura. O “chá” torna-se assim mais concentrado, o que se constata pela sua cor avermelhada. Para meio litro de água são necessários 50 g de cavalinha seca. Se for em verde há que duplicar o seu peso. O “chá” de cavalinha possui paladar discreto mas agradável e não apresenta contra-indicações. 

A utilização do concentrado da cozedura da cavalinha para juntar à água do banho dá também bons resultados. Para males respiratórios aconselha-se a aspirar o vapor da cozedura da planta. Da cavalinha fresca pode extrair-se o respetivo suco, que é a melhor maneira de se aproveitar as suas excecionais propriedades. Infelizmente importamos este extrato da Alemanha a preços altíssimos.

Enfim, há ainda quem recomende misturar os rebentos tenros nas saladas cruas, ou usar o pó para temperar a comida já que a cavalinha é, comprovadamente, um ótimo remineralizante.

Miguel Boieiro

sexta-feira, 2 de março de 2018

PLANTAS PARA COLHER E DEGUSTAR: texto 4 - Stevia (by Miguel Boieiro)

Para este escriba curioso da botânica, o que mais surpreendeu na visita efectuada à “Biofach”, maior feira mundial de produtos biológicos, que se realiza todos os anos em Nuremberga, foi a intensa divulgação e a grande variedade de alimentos que integravam a stevia, como elemento substituto do açúcar. Prevejo que, muito em breve, tenhamos em Portugal a promoção da stevia que é ainda, entre nós, pouco conhecida. 

Ora a stevia é uma erva plurianual, ou, vá lá, um arbusto que eu já conhecia desde o simpático convite do meu amigo Dr. Gonçalves Pereira para visitar a sua quinta de raridades botânicas, lá para os lados da Anadia. Trata-se de uma planta tropical, oriunda da zona do Paraguai, que pertence à família das Compostas ou Asteráceas e que engloba cerca de 40 espécies.

A que nos interessa denomina-se Stevia rebaudiana Bertoni. O botânico suíço Moisés Bertoni foi quem primeiro descreveu esta planta que pode medir 80 cm de altura e possui pequenas flores esbranquiçadas e raiz perene e fibrosa, proporcionando múltiplos rebentos. Acrescenta o Dr. Gonçalves Pereira um facto curioso: a folhagem, quando caída no solo, dificilmente se biodegrada ou é destruída por insetos.
Parece que os índios guaranis já utilizam a Stevia rebaudiana há séculos, como adoçante do “chá” de erva-mate e remédio eficaz para várias enfermidades.
 
A análise química das suas folhas apresenta dois compostos de sabor adocicado: o esteviosídeoe o rebaudiosídeo A que são 200 a 300 vezes mais doces do que a própria sacarose proveniente da cana do açúcar. Aliás, em relação ao açúcar apresenta apreciáveis vantagens porque não altera o nível da glicose no sangue, não contém calorias e é absolutamente natural, ou seja, é isenta de ingredientes artificiais.
Há todavia um “inconveniente” de peso porque a planta cresce espontaneamente e não pode ser patenteada. Logo, coloca em perigo a rendibilidade das agressivas multinacionais de edulcorantes que tudo fazem, muitas vezes sem qualquer escrúpulo, para obter chorudos lucros. Tem havido uma autêntica guerra à stevia movida pelos fabricantes de aspartame (um autêntico veneno) e de outros adoçantes químicos preparados para diabéticos. 
Nos Estados Unidos da América e na União Europeia baniu-se inicialmente a venda de produtos com stevia e mais tarde lá se admitiu a comercialização, mas com fortes restrições. Entretanto, a China tornou-se o principal produtor mundial, enquanto o Japão que já fabrica e utiliza extratos de stevia há trinta anos, é hoje o seu maior consumidor, onde o produto representa cerca de 40% do respetivo mercado de adoçantes.
 
Efectuadas várias análises químicas e estudos, eles confirmaram as vantagens da stevia, cujo emprego corrente chegou a ser proibido nos EUA por pressão do poderoso “lobby” industrial de adoçantes artificiais, como antes se aludiu.
Para além dos glicosídeos já mencionados (estiviosídeo e rebaudiosídeo), detetaram-se outros princípios ativos importantes, saponinas, taninos e óleo essencial, formando um todo harmónico não fermentável e com pH estabilizado.
Estão comprovadas as propriedades medicinais desta planta singular, como a de exercer efeitos calmantes sobre o sistema nervoso, eliminar a azia, reduzir a fadiga, a depressão e as insónias e controlar a hipertensão arterial. Verifica-se ainda que estimula as funções digestivas e cerebrais, faz baixar os níveis de ácido úrico e favorece a eliminação de toxinas.
 
É particularmente útil no caso da diabetes, dado que substitui o açúcar, não deixando qualquer sabor residual e permitindo a redução da quantidade de insulina ministrada diariamente aos doentes.
 

No Brasil usa-se a infusão da planta para combater a diabetes, picando a stevia seca a qual é deitada sobre água a ferver. Dizem que basta apenas uma colher de chá por chávena, deixando repousar dez minutos e tomar duas vezes por dia no intervalo das refeições.

Apesar da poderosa movimentação contra a stevia, usando vários argumentos como, por exemplo, a de possuir ação anticoncecional, diversas empresas de suplementos alimentares já comercializam quer o esteviosídeo, quer o rebaudiosídeo, componentes adoçantes extraídos naturalmente das respectivas folhas, cuja apresentação é de um simples pó branco.
 
Na casa particular onde fiquei alojado, em Nuremberga, ao abrigo do sistema esperantista “Pasaporta Servo”, tive oportunidade de verificar o uso corrente dessas substâncias na dieta alimentar dos residentes. 

Fiquei fortemente convencido de que se trata de um elemento revolucionário na actual ciência da nutrição, constituindo uma alternativa ideal para as pessoas diabéticas ou para as que seguem regimes de emagrecimento, prevenindo o abuso do açúcar. Por outro lado, afasta os efeitos colaterais, comprovadamente nocivos, dos edulcorantes fabricados através de processos de química de síntese que só logram singrar porque o lucro fácil continua, infelizmente, a ter a primazia na sociedade propagandística e consumista que nos enleia.

Miguel Boieiro